Sou uma alma enrugada, carcomida, calejada morando em um corpo que não sabe bem a idade e a forma que tem. O silêncio me separa dos outros. Eu sei que optei. Optei pela sobriedade, pela crença e pela calma.
Aposentadoria antecipada do mundo. Ou finalmente tirei férias. Não sei bem. Mas entre amigos que se casam, se separam, se embriagam e viajam, eu resolvi ficar em uma ilha deserta sem telefone, longe, muito longe de tudo.
E chamem como quiserem.
Eu tenho milhares de histórias em páginas e páginas, imagens e imagens, músicas e sons que outros já viveram. Decidi por uma história sem clímax. Eu só quero viver a aventura dos desconhecidos que dormem ao meu lado, mudos ao meu lado.
Eu sei que optei. Sou como uma velha desiludida, descrente da vida, tão machucada que se isolou e mudou de nome. Uma Greta Garbo. E acredito piamente que ela foi feliz, porque finalmente estou sendo. Nunca dependi tão pouco. Nunca sonhei tão pouco. Nunca realizei tanto.
Acordar sempre foi mais difícil. E as coisas têm outro gosto. Eu mal vejo as cores. Acabou-se o deslumbramento. Eu passo pela vida e não sinto que ela passe por mim. Eu vivo como os medíocres. Desapercebidamente, silenciosamente.
Eu sou uma alma velha, carcomida, calejada e medíocre. Eu não bebo,não como carne, não saio à noite, não faço sexo por hora e por opção, não tenho amigos por total incapacidade de aceitar que eles passem ébrios por muitas coisas.
Eu tenho afeto e memória em mim. Estranhamente, isso não me deixa ter saudade de nada ou de ninguém. Estou tentando não ser hipócrita e digo "sinto sua falta" pra fazer alguém feliz. E é isso que eu penso da mentira - que seja usada quando necessária for para o bem alheio, assim como a verdade e a omissão.
Eu sou uma alma velha, carcomida, calejada, medíocre e insensível porque só chora calada e você só é sensível quando o mundo o vê. Prefiro a minha transparência, a beleza que descubro aos poucos e as histórias tristes.
E confesso: eu sou uma velha carcomida, calejada, medíocre, insensível e nunca fio tão feliz.
Wow! Isn't it beautiful?
Segunda-feira, Setembro 28, 2009
Quarta-feira, Junho 17, 2009
"Um branco, um xis, um zero"
Alguns espaços em branco, não há nada ou ninguém que os preencha. Talvez nem os devam. Mas certo é que em certos dias eles parecem querer dominar o mundo inteiro, como a cegueira total, absoluta e inesperada em que se baseia o medo.
E eu temo. Em dias assim, a vida toda parece de uma maldade extrema e o grande passo que separa a cama do chão não quer seguir a gravidade.
A única coisa que eu peço é que me deixem aqui, imóvel, sob meus lençóis, porque eu tenho o direito de temer e de não querer enfrentar a dramática guerra de todos os dias.
E não importa a hora em que eu acorde, acordar nunca foi tão difícil.
E eu temo. Em dias assim, a vida toda parece de uma maldade extrema e o grande passo que separa a cama do chão não quer seguir a gravidade.
A única coisa que eu peço é que me deixem aqui, imóvel, sob meus lençóis, porque eu tenho o direito de temer e de não querer enfrentar a dramática guerra de todos os dias.
E não importa a hora em que eu acorde, acordar nunca foi tão difícil.
Sábado, Junho 06, 2009
Na sua boca eu me permito pôr fé no é da esperança e se me deito à noite sorrindo são seus lábios que me calam.
Com você o amor é um acidente, um pecado, um vício e eu me permito não dançar música alguma enquanto você tocar.
Nos seus braços eu me permito silenciar a dor de um dia triste, silenciar a dor de um dedo em riste, silenciar a dor de acreditar
que amar fosse findo. E em seu silêncio, assim, dormindo, eu vejo a luz na noite mais escura e vejo chorar o sonho de viver só, eu vejo uma casa colorida, três quartos, uma vida que, talvez, ninguém mais pode me dar.
Quero comer sua comida ensosa e reclamar dos pratos sujos na pia, e eu sei da lentidão profunda quando a sua manhã acorda e eu preciso correr. Quero dormir todos os seus sonhos enquanto os meus esperam silenciosos todas as suas conquistas. E eu não quero nada mais que esperar você, no seu tempo certo, no seu futuro incerto, na sua indecisão de sempre.
E eu não me importo que você durma enquanto eu te escreva poemas de amor...
Com você o amor é um acidente, um pecado, um vício e eu me permito não dançar música alguma enquanto você tocar.
Nos seus braços eu me permito silenciar a dor de um dia triste, silenciar a dor de um dedo em riste, silenciar a dor de acreditar
que amar fosse findo. E em seu silêncio, assim, dormindo, eu vejo a luz na noite mais escura e vejo chorar o sonho de viver só, eu vejo uma casa colorida, três quartos, uma vida que, talvez, ninguém mais pode me dar.
Quero comer sua comida ensosa e reclamar dos pratos sujos na pia, e eu sei da lentidão profunda quando a sua manhã acorda e eu preciso correr. Quero dormir todos os seus sonhos enquanto os meus esperam silenciosos todas as suas conquistas. E eu não quero nada mais que esperar você, no seu tempo certo, no seu futuro incerto, na sua indecisão de sempre.
E eu não me importo que você durma enquanto eu te escreva poemas de amor...
Um silêncio absurdo.
Em seus olhos cerrados o mistério entre os pés e a beira do abismo. E eu sinto um medo imenso e nada mais além disso. Uma infelicidade de temer que me prende à vida.
Lamento que seus braços não sejam mais fortes ou seu abraço mais preciso, mas quando me perco é assim que me encontro.
Ele me diz tudo que preciso ouvir e umas outras milhares de bobagens que me enfraquecem, me podam, me fazem esquecer que, em mim, tudo que corre é vivo.
Em seus olhos cerrados uma terror enorme de talvez só beber do sono através dele. A que horas me chagarão os sonhos? Uma noite tão alta com luzes entrecortadas e um barulho inesgotável de tempestade. E o abismo me aponta um futuro breve, agonizando aos pés de um desejo que eu não posso suprir.
Eu posso ver o fim em seus olhos cerrados, logo ali, sobre a cama.
Lamento que seus braços não sejam mais fortes ou seu abraço mais preciso, mas quando me perco é assim que me encontro.
Ele me diz tudo que preciso ouvir e umas outras milhares de bobagens que me enfraquecem, me podam, me fazem esquecer que, em mim, tudo que corre é vivo.
Em seus olhos cerrados uma terror enorme de talvez só beber do sono através dele. A que horas me chagarão os sonhos? Uma noite tão alta com luzes entrecortadas e um barulho inesgotável de tempestade. E o abismo me aponta um futuro breve, agonizando aos pés de um desejo que eu não posso suprir.
Eu posso ver o fim em seus olhos cerrados, logo ali, sobre a cama.
Sexta-feira, Janeiro 16, 2009
Algo raro
Poesia é algo raro. Assim como raramente é o amor.
Ao descobrir Vitor Ramil, descobri novamente a poesia. E se não bastasse, ainda me veio embebido em música.
Há muito tempo não conhecia algo tão poético. Há muito tempo esse amor não me vinha assim, indescritível, inadjetivável, de rompante.
Poesia é algo raro. E eu agradeço a ele que me traduz no sul como se seu Rio Grande fosse norte.
"O meu rosto que o espelho não vê
A janela imóvel em seu desatino
Esse meu destino que não vai passar
Se você vier"
Ao descobrir Vitor Ramil, descobri novamente a poesia. E se não bastasse, ainda me veio embebido em música.
Há muito tempo não conhecia algo tão poético. Há muito tempo esse amor não me vinha assim, indescritível, inadjetivável, de rompante.
Poesia é algo raro. E eu agradeço a ele que me traduz no sul como se seu Rio Grande fosse norte.
"O meu rosto que o espelho não vê
A janela imóvel em seu desatino
Esse meu destino que não vai passar
Se você vier"
Para um fim de semana chuvoso
"Essa cama imensa consumindo a noite
Esse livro aberto como alegoria
O abajur perdido em sua luz
Essa água quieta desejando a sede
O controle girando no ar
A TV remota em sua fantasia
Uma alegria que não vai passar
Se você vier
Esse teto frágil sustentando a lua
Esse livro aberto como uma saída
O tapete e seu plano de vôo
O lençol revolto antecipando o gozo
Essa velha casa de coral
Essa concha muda que o meu sonho habita
A paixão invicta que não vai passar
Se você vier
Esse rádio doido de olhos valvulados
Esse livro aberto como uma sangria
Esse poema novo sem papel
O papel que cabe aos meus sapatos rotos
O meu rosto que o espelho não vê
A janela imóvel em seu desatino
Esse meu destino que não vai passar
Se você vier
Esse quarto agindo à minha revelia
Esse livro aberto como uma indecência
O desejo é um naco de pão
A ilusão exposta em tanto desalinho
Uma tecla insiste em bater
No relógio o tempo é uma saudade tensa
E essa cama imensa que não vai passar
Se você vier"
Livro aberto - Vitor Ramil
d_ _b : Vitor Ramil - Satolep Sambatown
Esse livro aberto como alegoria
O abajur perdido em sua luz
Essa água quieta desejando a sede
O controle girando no ar
A TV remota em sua fantasia
Uma alegria que não vai passar
Se você vier
Esse teto frágil sustentando a lua
Esse livro aberto como uma saída
O tapete e seu plano de vôo
O lençol revolto antecipando o gozo
Essa velha casa de coral
Essa concha muda que o meu sonho habita
A paixão invicta que não vai passar
Se você vier
Esse rádio doido de olhos valvulados
Esse livro aberto como uma sangria
Esse poema novo sem papel
O papel que cabe aos meus sapatos rotos
O meu rosto que o espelho não vê
A janela imóvel em seu desatino
Esse meu destino que não vai passar
Se você vier
Esse quarto agindo à minha revelia
Esse livro aberto como uma indecência
O desejo é um naco de pão
A ilusão exposta em tanto desalinho
Uma tecla insiste em bater
No relógio o tempo é uma saudade tensa
E essa cama imensa que não vai passar
Se você vier"
Livro aberto - Vitor Ramil
d_ _b : Vitor Ramil - Satolep Sambatown
Sábado, Dezembro 27, 2008
Meia rima
O tempo dobrou a esquina
fugindo da menina que corria contra ele.
O tempo mal acabado
consumido, desolado
corria pra encontrar alento.
O tempo dobrou a esquina
e foi mais longe do que deveria -
esqueceu de todo mundo
e o mundo inteiro parou pra olhar
o dia que não passava
o calor que não findava
o vento nada fazia.
Queriam matá-lo e ele corria
esqueceu-se das engrenagens
que Deus lhe confiara
o sol que não se punha
a lua que não girava
a água que não caía.
Queriam matá-lo e ele corria -
o homem se diz seu escravo
mas dele é a tecnologia
que tirou do tempo a alegria
destruiu distâncias
desfez a saudade
aumentou a desigualdade
entre os que têm sobre ele o poder
e os que não têm nada.
O tempo queria destruir computadores
desfazer a eletricidade
Queria que se lembrassem de como era anoitecer
do prazer de olhar estrelas
Queria que voltassem a ser crianças
as crianças
a ser velhos os velhos
a ser humano todo o mundo
Queria parar as armas
derrubar os prédios
destruir as geladeiras
os matadouros, as avenidas.
"Se soubessem os homens
o sabor da fruta caída
o prazer de estrelas brilhando
o tempo da caça abatida,
não correriam demais
não me abateriam como animal.
Os homens se dizem meus escravos
mas eu sempre dei 24 horas ao dia
7 dias à semana
e ao mês 30 dias.
Eu sou o mesmo desde os primórdios
antes de o homem ser homem
antes de Deus dar a essa cria
o poder de desdenhar da vida."
****
Reflexões acerca do tempo - plagiadas de Sami Tarik.
fugindo da menina que corria contra ele.
O tempo mal acabado
consumido, desolado
corria pra encontrar alento.
O tempo dobrou a esquina
e foi mais longe do que deveria -
esqueceu de todo mundo
e o mundo inteiro parou pra olhar
o dia que não passava
o calor que não findava
o vento nada fazia.
Queriam matá-lo e ele corria
esqueceu-se das engrenagens
que Deus lhe confiara
o sol que não se punha
a lua que não girava
a água que não caía.
Queriam matá-lo e ele corria -
o homem se diz seu escravo
mas dele é a tecnologia
que tirou do tempo a alegria
destruiu distâncias
desfez a saudade
aumentou a desigualdade
entre os que têm sobre ele o poder
e os que não têm nada.
O tempo queria destruir computadores
desfazer a eletricidade
Queria que se lembrassem de como era anoitecer
do prazer de olhar estrelas
Queria que voltassem a ser crianças
as crianças
a ser velhos os velhos
a ser humano todo o mundo
Queria parar as armas
derrubar os prédios
destruir as geladeiras
os matadouros, as avenidas.
"Se soubessem os homens
o sabor da fruta caída
o prazer de estrelas brilhando
o tempo da caça abatida,
não correriam demais
não me abateriam como animal.
Os homens se dizem meus escravos
mas eu sempre dei 24 horas ao dia
7 dias à semana
e ao mês 30 dias.
Eu sou o mesmo desde os primórdios
antes de o homem ser homem
antes de Deus dar a essa cria
o poder de desdenhar da vida."
****
Reflexões acerca do tempo - plagiadas de Sami Tarik.
Domingo, Dezembro 21, 2008
Ponto
Na sua boca eu me permito calar um grito
meia dança, um giral, um giro
eu quero seu conflito no silêncio do assobio
que me acorda de manhã
e de manhã
a consciência de uma história mal dita
Na sua boca eu me permito correr perigo
estou em qualquer lugar e desafio
qualquer loucura a ser menos sensata que Você
e
Eu me permito ouvir você falar da semi-dor de saber
eu me permito não saber de mim
Na sua boca eu me permito
tecer um embaraço
o descompasso de não ter
e de manhã
a consciência dessa história tão maldita
um grito, um giral, um giro
eu quero um passo na sua direção
meia dança, um giral, um giro
eu quero seu conflito no silêncio do assobio
que me acorda de manhã
e de manhã
a consciência de uma história mal dita
Na sua boca eu me permito correr perigo
estou em qualquer lugar e desafio
qualquer loucura a ser menos sensata que Você
e
Eu me permito ouvir você falar da semi-dor de saber
eu me permito não saber de mim
Na sua boca eu me permito
tecer um embaraço
o descompasso de não ter
e de manhã
a consciência dessa história tão maldita
um grito, um giral, um giro
eu quero um passo na sua direção
Sexta-feira, Novembro 21, 2008
Poesia prática.
Poética. Tampouco prática.
Não que haja caminhos a escolher. Mata fechada não oferece caminhos. É puro desbravamento, marco inicial e todas as possibilidades de se chegar a lugar nenhum - ou lugar qualquer.
Não que haja esperança. É entrar em um imenso templo vazio no silêncio fúnebre da ausência de um deus - qualquer um.
Poética? Tão pouco prática.
Nem náufrago certo da espera - pela morte ou pelo resgate. Hoje eu sou o conformismo silencioso e solitário do náufrago a três dias de lugar ou acontecimento quaisquer. Um mar calmo sem tubarões e um sol brando que nada diz. A sede é a mesma: "o que é morrer de sede em frente ao mar"?
A dor absurda de não saber nada.
A dor absurda de gerar um blues não poder pari-lo.
A dor absurda de silenciar.
____
d_ _b
Ecoando: paraquenãoleiam.
Não que haja caminhos a escolher. Mata fechada não oferece caminhos. É puro desbravamento, marco inicial e todas as possibilidades de se chegar a lugar nenhum - ou lugar qualquer.
Não que haja esperança. É entrar em um imenso templo vazio no silêncio fúnebre da ausência de um deus - qualquer um.
Poética? Tão pouco prática.
Nem náufrago certo da espera - pela morte ou pelo resgate. Hoje eu sou o conformismo silencioso e solitário do náufrago a três dias de lugar ou acontecimento quaisquer. Um mar calmo sem tubarões e um sol brando que nada diz. A sede é a mesma: "o que é morrer de sede em frente ao mar"?
A dor absurda de não saber nada.
A dor absurda de gerar um blues não poder pari-lo.
A dor absurda de silenciar.
____
d_ _b
Ecoando: paraquenãoleiam.
Assinar:
Postagens (Atom)